Professores e o perigo das generalizações
Há tempos a qualidade de um sistema educativo é determinada pela qualidade dos seus professores.
Esta afirmação tem sido proferida em vários contextos e por diferentes organizações políticas, profissionais, educativas e de investigação com abrangência e influência nacionais e internacionais, e visa fortalecer que os professores são os profissionais fundamentais de qualquer sistema escolar.
Trata-se de uma afirmação óbvia. Devemos, então, interrogar-nos por que razão as organizações sentiram, e sentem, a necessidade de declará-la de forma tão clara, veemente e continuada. A resposta a esta questão me parece, igualmente, óbvia: as dúvidas relativas à importância e qualidade dos professores surgem porque são, por razões diversas, deliberada e frequentemente, semeadas nos mais diversos contextos – político, acadêmico, social – que (se) refletem (n)a opinião pública, com efeitos na (auto)percepção da qualidade docente.
Vejo dois enormes equívocos subjacentes a tais dúvidas: O primeiro equívoco reside no fato de se questionar a importância dos professores nos sistemas educativos, havendo até algumas tendências que procuram substituir a importância dos professores pela importância do ensino – em inglês soa melhor porque a raiz da palavra é a mesma: "teacher" e "teaching" –, como se ambos os conceitos não fizessem parte do mesmo todo. Este é um equívoco relativamente fácil de esclarecer: sem professores não haveria ensino, escolas ou sistemas educativos.
O segundo equívoco está em questionar a qualidade dos professores, visando alguns, mas colocando o estigma da dúvida sobre TODOS os professores...
Eu acredito que esta generalização simplória não ofereça grande preocupação aos professores desinteressados e incompetentes – a maioria destes é, intrinsecamente, imune a esse tipo de afronta e se utiliza, justamente, dela, para justificar o seu desinteresse e má conduta profissional.
Por outro lado, ela atinge de forma contundente e totalmente injusta, os professores que constroem/contribuem positivamente à qualidade do sistema educativo: os que se interessam pelos seus alunos e pela sua escola, os que assumem a inteira dimensão da sua responsabilidade profissional, orientam a sua ação em função do processo de aprendizagem dos seus alunos, agem em conformidade com os princípios éticos da profissão, e reconhecem o impacto decisivo que a suas ações exercem na vida e desempenhos dos seus alunos. Eu mesma, sempre busquei - e sigo fazendo - orientar a minha prática por este caminho.
Da mesma forma, fazer generalizações em relação à qualidade dos professores, assumindo a sua qualidade total ou geral, traz riscos, como o de não serem levadas a sério – porque imprecisas – ou serem desvalorizadas – porque redutoras. E, mais uma vez, acarreta prejuízo e injustiça aos professores cujo desempenho merece ser valorizado e reconhecido.
É urgente aferir a linguagem e medir o impacto das palavras e os perigos das generalizações, especialmente quando elas são disparadas por pessoas em cargos políticos, “formadores de opinião”, jornalistas...
É preciso ter coragem para esmiuçar, valorizar e assumir de forma diferente os distintos tipos de professores. E há tantos que fazem tão bem o seu trabalho, que marcam positiva e profundamente a vida de seus alunos e de suas escolas e que o fazem de tantas formas diversas: há os que fazem projetos inovadores e, naturalmente, alcançam mais visibilidade, mas há, também, aqueles que no cotidiano das suas aulas, de forma continuada, consistente, anônima e menos visível, aguçam a curiosidade dos seus alunos, acolhem a diversidade, entusiasmam para o conhecimento e transformam vidas.
Alguns tocam a vida de centenas de alunos por ano, com as suas idiossincrasias, com os seus estilos de aprendizagem, com as suas expetativas e capacidades tão diversificadas. São estes professores que nos importa reconhecer e acarinhar...
Professores passam muitas reformas e contrarreformas que têm os obrigado a constantes mudanças em seu trabalho. E não me refiro concretamente às condições dele. Falo das alterações que se referem à matéria: alterações de currículos, de paradigmas de abordagem ao currículo, de programas curriculares, de formas, condições e tipos de avaliação, de alargamento da diversidade de crianças e jovens que estão e ficam nas escolas, da cascata, crescente, de obrigações – impossíveis de cumprir – que é imputada às escolas e aos professores. Entre os professores há os entusiasmados que dão corpo às mudanças, há também os resistentes, que insistem em fazer como entendem ser adequado e esperam pela nova mudança para justificar a permanência, há os que usam as possibilidades do sistema para melhor se servirem dele. É essencial não confundir o todo com a parte ou vice-versa.
São grande maioria, os professores que merecem reconhecimento e valorização Sejamos justos. As generalizações são perigosas e podem tanto cercear quanto matar o entusiasmo dos professores que (ainda) o têm. Sem eles (nós), o sistema educacional se acaba...



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