DO ESTÁGIO DA FACULDADE, PRA VIDA

Estes dias, fazendo uma faxina geral (inclusive, mental) por aqui, topei com uma foto que me fez lembrar de uma das vezes que me reafirmaram que dar aulas era, de fato, o que eu desejava pra minha vida.

A verdade é que, com exceção daqueles dias mais amargos, comuns a todo mundo, com a graça de Deus, eu tenho quase que diariamente, durante o trabalho, confirmações de que estou na profissão certa.

Acontece que a foto, em especial, na verdade, parte de um relatório de estágio supervisionado, foi, especialmente, mais intenso.

Em 2008, nosso último ano de faculdade, uma amiga e eu, minha xará, (assim, com "xis"), Rafa, fizemos estágio num colégio público aqui da cidade. Acompanhávamos as aulas de inglês às segundas-feiras à noite, de alunos do EJA.

Para quem não conhece, o EJA, Educação de Jovens e Adultos, é um projeto voltado à formação de pessoas que retomaram os estudos, outrora interrompidos por algum motivo.

Foi 'osso'. As salas em sua maioria, eram constituídas por alunos mais velhos. Vários deles, muito mais velhos do que nós, inclusive.

Gente humilde da zona rural da cidade, que muitas vezes exercia serviços braçais e pesados durante o dia, e chegava à escola carregando corpos e mentes exaustos.

De cara notamos a dificuldade de muitos em acompanhar as aulas. Havia uma porção deles que nem sequer conhecia as regras e os conceitos básicos da própria língua, quanto mais de uma língua estrangeira...

Ficamos tristes e preocupadas. Como poderíamos desenvolver um trabalho bacana com tão pouco estímulo e ferramentas?!

Ledo engano o nosso! Não poderíamos desejar mais estímulo do que acabamos recebendo à medida que o estágio acontecia.

Dada a enorme carência do Português, em paralelo às aulas de estágio, desenvolvemos um projeto de alfabetização com parte dos alunos. Eram 10 ou 12 no total.

Quanto carinho recebemos daquela turma. Quantos sorrisos a cada sílaba formada e pronunciada. A cada leitura, insegura, mas no fim, correta.

Embora tenhamos nos empenhado sobremaneira em contribuir com a alfabetização dos alunos, mantivemos o foco no nosso objetivo principal que eram, claro, as aulas de inglês.

Deveríamos preparar um plano de aula e, ao final do estágio, dá-la turma. Reportando o andamento da mesma, os resultados, as impressões...

Óquei. Mas a turma mal acompanhava as aulas da professora titular de inglês. Que faríamos para que conseguissem a nossa?

Uma turma que mal dominava o português, formada por adultos. A maioria de meia-idade. Pais e mães de família, das quais muitas mulheres, como tão comumente acontece há tempos, acumulavam o serviço fora de casa, com o doméstico.

Pois bem. Tínhamos que trabalhar algo que lhes fosse relevante, algo que fizesse parte da realidade da classe. Mas... o quê?!

Quando questionados sobre o que sabiam ou o quanto falavam de inglês, quase que a totalidade respondeu: 'Nada'.

Queríamos mostrar que eles estavam errados. Que mesmo que, muitas vezes, nem se dessem conta disso... que o inglês estava presente, mesmo que de maneira sutil, na vida diária de todos.
Resolvemos explorar justamente isso: a inserção de palavras em inglês (às vezes até em excesso), na vida cotidiana do brasileiro.

Começamos com música. "Samba do Approach", do Zeca Baleiro S2, já que a música brincava bastante com isso. Pedimos aos alunos que identificassem as palavras que achassem ser estrangeiras. Felizmente, a dificuldade foi praticamente nenhuma.

Feito isso, procuramos 'desvendar' o significado das palavras através da conferência. Funcionou para a maioria delas. Explicamos questões culturais, como "brunch", por exemplo...

Em seguida, achamos que o que traria mais significado real àquilo tudo, deveria ser um ambiente conhecido pela grande maioria, senão a totalidade deles: os supermercados.

Selecionamos imagens de produtos variados apenas com os nomes em inglês, e criamos uma espécie de "jornalzinho", daqueles com as ofertas da semana, comumente distribuídos pelos supermercados.
Distribuímos um para cada aluno. Em seguida, os questionamos de uma maneira que eles, naturalmente, respondessem às perguntas, justamente com os nomes em inglês:

"Guys, como é mesmo o nome daquele refrigerante de limão da Coca-Cola?"
"Sprite, professora."
"Exatamente. E vocês sabiam que Sprite é uma palavra em inglês que significa "fada"?

E aquele tira-manchas caaaaro, de embalagem cor-de-rosa, que tem propaganda na TV?"
"O Vanish? Ai, professora, caro mesmo!
"Esse mesmo. O que ele faz é sumir com as manchas, né?! Então, "Vanish" significa isso aí: sumir, desaparecer."




As expressões de "Nossa!" e os "aaaaaaah", praticamente em uníssono, denunciavam que aquelas, assim como tantas outras que as seguiram, eram novidades.

"Estão vendo só?! - enfatizávamos - vocês sabem muito mais inglês do que imaginam..."
A turma era de adultos, mas que, durante aquela aula, reagiam feito crianças, maravilhadas com novas descobertas.

Sorrisos. Burburinho. Olhos brilhando até. Muito. Creio que apenas não mais que os meus próprios, e os da Rafa.

A semana seguinte foi nossa última. E quanto carinho recebemos daqueles alunos! Chegamos na sala e a encontramos repleta de pratos com doces, salgados, e litros de refrigerante.

"Professoras, essa torta aqui foi eu que fiz. Depois me digam se ficou boa hein?!"
"Professora, prova esse bolo aqui. É da minha mulher. A senhora vai gostar."
"Come que cêis são muito magrinha!"
"Cêis não existem. São muito legais. Queria ter professoras assim..."

Foram horas deliciosas. De puro carinho.

Lembro de terem nos agradecido repetidas vezes por os termos "ensinado tanto".
Gratas, saímos nós duas de lá. Agradecidas por termos, na verdade, mais aprendido, do que ensinado qualquer coisa que fosse... e, na minha cabeça pergunto eu àquela turma: "e vocês, existem mesmo?!"

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