Aulas Particulares: Como eu procuro construir uma relação de amizade, sem perder o foco?

Trabalhei por sete anos numa famosa escola de idiomas. Metade deles como professora, e a outra metade, como coordenadora pedagógica. Muitos alunos já com conhecimento prévio, vindos de outras franquias, procuravam-nos. Além daqueles que estudavam inglês com um professor particular.
Entre os alunos de outras escolas, normalmente a decisão de procurar por outra, era a metodologia, o preço, ou problemas com horários.

Já entre os alunos que estudavam inglês com professores particulares, percebi sempre a mesma queixa: “Meu professor é muito legal! Hoje somos, inclusive, amigos. E o problema está justamente aí. Viramos amigos e acabamos deixando a aula de lado. A gente acabava passando a aula inteira conversando sobre outras coisas, e esquecia da aula.”

Há 3 anos e meio, vi-me sem emprego. Imediatamente, entrei em contato com alguns alunos da época em que eu dava aula particular, e avisei-os que retomaria as aulas. Não podia me dar ao luxo de ficar sem trabalho. Quem é que pode, não é mesmo?

Nesse meio tempo, inscrevi-me em processos seletivos de empresas, enviei currículos a outras escolas de idiomas...

Acontece que em pouco mais de 2 meses, eu já tinha 12 alunos e, o que as escolas de idiomas e empresas me ofereciam era uma carga horária muito maior e um rendimento inferior ao que eu conseguia com tais alunos.

Assim, talvez pela primeira em anos, eu optei por arriscar-me num trabalho informal, sem quaisquer garantias... e digo que pelo menos até agora, 3 anos e meio, e 51 alunos depois (fora os que já passaram por aqui nesse período) a minha demissão foi a melhor coisa que poderia ter me acontecido!

Acontece que o começo, embora rápido - afinal, eu consegui um número razoável de alunos num prazo relativamente curto -, não foi assim, “a piece of cake”...

Foram sete anos numa única escola. Habituada a uma determinada metodologia, e uma determinada dinâmica de aula... e então, eu estava de volta à informalidade, às aulas particulares... e precisa começar de algum ponto.



Quanto ao local para as aulas, não tive problemas, tamanho o espaço que eu tenho disponível dentro de casa. Foi uma questão de adaptá-lo.

Isso feito, seguiu-se à escolha do material. Muita pesquisa e cuidado.
Mas, na verdade, a minha preocupação principal era que não acontecesse comigo e com meus alunos o que, justamente, acontecera àqueles alunos que procuraram aulas numa escola porque a relação de amizade que construíram com seus professores particulares, acabou prejudicando seu aprendizado.
Como fazer com que isso não acontecesse também com os Meus alunos?

A bem da verdade, digo que ainda hoje, não tenho uma resposta 100% certa para isso.
Mas eu procuro, com bom senso e discernimento, evitar que isso aconteça. E, tamanho o número de interessados em aulas que me procuram numa base quase que diária, por conta de indicações dos meus próprios alunos, acredito que venha funcionando.

As aulas particulares, em especial da maneira em que tenho trabalhado hoje, com aulas individuais ou pequenos grupos de, no máximo, quatro alunos, possibilitam uma maior proximidade entre professor e aluno e, portanto, é super natural que role uma afinidade e mesmo uma amizade.
Eu concordo e indo além, eu busco isso. A amizade dos meus alunos.

Mas é preciso ter bom senso e saber dosar até o ponto em que tal amizade com o aluno aconteça de modo a beneficiar o processo de ensino-aprendizagem, e não atrapalhá-lo ou mesmo perdê-lo.
Não vejo problema algum que determinadas aulas aconteçam, inteiramente, num bate-papo informal sobre a última viagem que meu aluno fez. Ou o filme ao qual ele assistiu ontem...

Se hoje temos muito assunto, e estamos afim de conversar, vamos conversar, mas com uma condição: vamos fazê-lo em INGLÊS!

“Ah, Rafa, mas eu não vou saber falar essas coisas em inglês.”
“Vai, sim, dear! Eu vou te ajudar. Tô aqui pra isso!”

Esse processo todo precisa, antes de qualquer coisa, ser uma AULA. Uma aula que aconteça através de um bate-papo, mas, ainda assim, uma aula, não um bate-papo simplesmente. Para o segundo, há uma padaria ótima aqui pertinho de casa, à qual podemos ir um dia desses para um café.

Assim, é importante que a conversa seja interrompida, quando houver uma brecha para isso, para correções, observações, correção de pronuncia, o que mais for preciso.

Não vou mentir. A tentação é grande e, muitas vezes o aluno, devido à dificuldade em formular certas frases, logo desiste da tentativa:

“Ai, Rafa. Não vou saber te explicar isso em inglês. Vou falar em português mesmo.”

Não vou mentir. De novo. Várias vezes os alunos conseguem me enrolar e, quando me dou conta, estou eu ali, deixando que ele me conte as coisas em português, e eu, respondendo ou comentando da mesma maneira.

Mas, em minha defesa, posso garantir que quando isso acontece, eu corrijo bem rapidamente. “Foco! Focus! In English, guys!”

A verdade é que eu acredito ser essencial construir uma relação de amizade, carinho e respeito com os meus alunos, sempre! Mas eu não posso deixar de lado o fato de que ele vieram até mim, em busca de uma profissional, alguém com capacidade e competência para atender a necessidade que eles têm de falar se comunicar em inglês. E, que, muitas vezes, pelo andar da conversa, eu pareça mais uma terapeuta ou psicóloga, eu sou uma professora. E é no meu conhecimento como tal, que eles investem seu tempo, dinheiro e, mais importante, suas expectativas... e que tipo de profissional eu seria, se não pudesse atender às expectativas de meu alunos? É minha obrigação fazê-lo e, muito mais que isso, é meu objetivo exceder tais expectativas!

Deste modo, devo sempre lembrar-me, que a minha função é ser a professora deles. Agora, se eu tiver a felicidade de ser a “professora-amiga” deles, tanto melhor! Que sorte a minha! (e a deles de terem uma amiga tão incrível quanto eu! Rsrs) Mas nunca o contrário: a “amiga-professora”... pelo menos, não em sala de aula, já que tenho casos inversos, de amigos que em certo momento, tornaram-se alunos.


Enquanto eu for capaz de separar as duas coisas. Melhor, enquanto eu for capaz de equilibrar ambas, sem perder o foco principal do meu trabalho, eu vou adorar ter meus alunos como meus amigos... e vou continuar amando cada barra de chocolate, cada doce de leite vindo de Minas, cada vinho vindo do Sul, cada batom trazido da ‘gringa’...cada lembrança, seja no meu aniversário, seja em uma data qualquer (que é ainda mais gostoso!), tendo a certeza de que eu estou desenvolvendo o meu trabalho da melhor maneira que posso... “melhor”, por ora. Porque a gente bem sabe que sempre a muito que evoluir.

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