A IMPORTÂNCIA DE SE CONHECER A PRÓPRIA LÍNGUA, AO APRENDER OUTRA


Há alguns anos, quando na faculdade, uma amiga e eu realizamos nosso estágio obrigatório em uma escola pública aqui da nossa cidade.

A aula a qual assistíamos era de um grupo de EJA (Educação para Jovens e Adultos) no 6º ano do Ensino Fundamental (antiga 5ª série), às segundas-feiras à noite.

A maioria dos alunos era constituída por jovens adultos trabalhadores. Contudo, havia um número razoável de alunos por volta dos cinquenta anos.


Foi bastante difícil. Posso afirmar que muitos dos alunos ali, não possuíam nem ao menos uma noção mínima do inglês, ou mesmo demonstravam qualquer interesse para tanto.


O que tornava nosso trabalho ainda mais difícil, era o fato de boa parte desses alunos sequer terem noções básicas de Português!


Com isso, acordamos com a coordenadora pedagógica da escola, em iniciar, paralelamente ao estágio, um projeto de alfabetização com tais alunos (o resultado, gratificante, fica como assunto para uma próxima postagem), afinal, como poderiam aprender efetivamente uma língua estrangeira, sem um conhecimento razoável de sua própria língua?


Pois bem. Este é o assunto desta postagem.

Tenho formação para dar aulas de inglês apenas. Português não se inclui em minha graduação. Contudo, sempre gostei muito da língua... talvez por conta do apetite voraz pela leitura, adquirido desde muito cedo (obrigada, mãe!) e, graças ao qual, alcancei um ótimo domínio da linguagem escrita e oral.


E foi justamente esse gosto pela língua portuguesa quem me despertou o interesse primeiramente pela língua inglesa e, em seguida, por outras línguas estrangeiras.


As colocações feitas aqui, tratam-se de uma opinião pessoal, baseada tão somente em minhas próprias impressões e experiências (embora acredite que existam pesquisas e estudos a esse respeito, procurei-os, sem sucesso).


É evidente que em boa parte das vezes, o que é definido como 'errado' de acordo com os padrões de determinada língua, não o é em outra.


Sabemos, por exemplo, que em Português é correto escrevermos os diferentes dias da semana, meses do ano, idiomas e nacionalidades, com a primeira letra em caixa baixa (salvo em início de frase), enquanto no inglês, todos estes devem ser escritos com a letra inicial maiúscula, não importando a posição da palavra na sentença.


Porém, não tão incomuns são os erros cometidos na língua inglesa devido a uma “transferência literal” de um português também errado.


Acredito ainda que tais erros sejam ainda mais notáveis no writing. Aqueles que não possuem domínio das regras de escrita em português, dificilmente conseguirão tê-lo em inglês, ou qualquer que seja a língua de chegada.


Como exemplo de um erro comum tanto na escrita quanto na fala, posso citar o ‘campeão’ de ocorrências “GO IN”, expressando a ideia (errada, em ambas as línguas em foco aqui, ou mesmo quaisquer outras) de “IR EM” algum lugar.


Que atire a primeira pedra quem nunca, em momento algum, disse: “Tô indo NO mercado. Quer algo de lá?!” (ou qualquer frase que o valha).


Aí é que está. Esse é um erro tão enraizado na nossa linguagem cotidiana, que é automático transferi-lo para a língua estrangeira que se está aprendendo.

Daí vem a teacher aqui (ou aí) e diz: “Não, senhor(a). Regrinha básica de qualquer língua: quem vai, VAI A ou PARA algum lugar, a não ser que você queira dar a ideia de adentrar. Sooo, if you go, you GO TO any place you wish, dear! (unless you wish to GO HOME or DOWNTOWN or to any other exceptions)”.


Chega até a ser "bonitinho". Se um aluno que já aprendeu tal regra acaba repetindo o erro, é automaticamente “alertado” pelo meu “torcer de nariz" e, muitas vezes, antecipa-se a mim dizendo: “My mistake, teacher. If I go, I GO TO... sorry.”

Outro exemplo de erro no inglês devido a um "mau" português, é o uso do EU na primeira 'posição' quando há mais de um sujeito na frase. São maioria os alunos que, pensando no português, "Eu e minha família", dirão ou escreverão exatamente isso: "I and my family".

Porém, para ambas as línguas o "EU" deve vir por último: "Minha família e eu", ou seja "My family and I". 

Curiosamente, aprendi tal regra quando criança, não na escola, mas com o professor Girafales, assistindo a um episódio de Chaves, e levo-a para a vida. (:


Obviamente, o domínio da língua materna não é fator exclusivamente determinante no sucesso do processo de aprendizagem de uma língua estrangeira. Contudo, ainda mais óbvio é o fato de que tal domínio é sim, um importante facilitador deste processo e, de algum modo, até um estímulo.


A verdade é que, como costumo pensar e procuro explicitar em algumas de minhas postagens com dicas de Português em minha página pessoal no Facebook, ninguém tem a obrigação de ser um “Pasquale da língua portuguesa”, ou tornar-se um “Grammar Nazi” pedante, e até mesmo linguisticamente preconceituoso... mas a gente tem, sim, a obrigação de buscar, dentro de nossas possibilidades e limitações, certo conhecimento da nossa própria língua, de maneira que tal conhecimento nos possibilite evolução...


Certas afirmativas clichês do tipo: “falar inglês nos permite abrir as portas de um mundo globalizado”, não deixam de ser verdade; bem como não saber fazer bom uso da nossa própria língua, pode não apenas não abri-las, como também fechá-las.




















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