YOU ARE QUOTING SHAKESPEARE WHEN...*


Em 2010, fui a Londres para fazer um curso intensivo de inglês. Programei-me com bastante antecedência para esta viagem. Fiz uma vasta pesquisa acerca de pontos turísticos famosos, e outros nem tanto, mais alternativos. Queria conhecer a Londres pouco conhecida pelos turistas.  Entretanto, devo confessar que um dos lugares que mais me fascinou entre tantos lugares maravilhosos naquela cidade, foi, de fato, um ponto obrigatório para qualquer turista: o Globe Theatre, ou Shakespeare’s Globe, pra mim, simplesmente, “o Teatro do Shakespeare.”
Imagine só: uma professora de inglês, apaixonada pela língua e história inglesa, no teatro onde Shakespeare teve suas peças representadas... não é preciso dizer mais nada, né?!
Tudo bem que o Globe que visitei não é o original onde, de fato, as peças foram encenadas. O ‘verdadeiro’ Globe, infelizmente, não escapou ao grande incêndio que destruiu um terço de Londres, em setembro de 1666. (para quem tiver interesse de saber mais sobre o incêndio.)
The New Globe Theatre, como é chamado o teatro hoje, foi erguido e reinaugurado em 1997, a cerca de 200 metros de distância de onde era o teatro original; mas, de qualquer forma, a atmosfera do lugar nos causa uma sensação difícil de descrever!
Quem lê ou alguma vez já leu Shakespeare, sabe que seus textos estilizados não são dos mais fáceis. Além de tratar de assuntos complexos, o autor fazia uso de uma linguagem difícil para os dias atuais; suas primeiras peças foram escritas de uma maneira bastante convencional, seguindo as tradições linguísticas recorrentes à época.
Entretanto, à medida que escrevia, Shakespeare passava a adaptar tal linguagem às suas próprias vontades e necessidades, mesclando, com maestria, o tradicional e o peculiar, inserindo seu estilo livre.
Embora difícil de precisar, estima-se que o inglês seja a língua com o maior vocabulário do mundo, com cerca de 1.2 milhão de palavras (para termos uma noção, o nosso português conta com cerca de 400 mil). Shakespeare teve sua parcela de contribuição nesse número tão grande (calcula-se 1.700 das nossas palavras “diárias”). Além de usar palavras já existentes de maneira, digamos, “mais criativa”, criou tantas outras, transformando substantivos em verbos, verbos em adjetivos, e adicionando livremente sufixos e prefixos...
Pois bem! Essa introdução toda para entrar no assunto do post de fato, sobre o qual, aproveitando a brecha do anterior, acerca de VOCABULARY ACQUISITION achei pertinente falar: as ‘criações’ de Shakespeare que foram incorporadas (de maneira magistral) à língua inglesa, e que são utilizadas até os dias atuais.
Existem diversas expressões cujas versões em nossa própria língua e, outras tantas que, embora façam mais sentido ao falantes de inglês, sequer imaginamos, terem sido “inventadas” ou mesmo utilizadas da maneira que fazemos hoje, mas, pela primeira vez, numa obra shakespeariana. Pretendo, aqui, mostrar algumas.
1.       “OFF WITH HIS HEAD”. Engana-se quem pensa que a famosa frase “Cortem a cabeça”, dita pela malvada Rainha de Copas em ‘Alice no país das Maravilhas’ é criação do autor da obra, Lewis Caroll. A “sentença fatal” apareceu pela primeira vez no texto da peça ‘Ricardo III’ (ato III, cena IV).
2.       “FAIR PLAY”: termo amplamente usado nos esportes para designar uma partida limpa, justa, está presente em uma cena de ‘A Tempestade’ (ato V, cena I)
3.       “IT’S GREEK TO ME”**: “Ah, isso é grego pra mim.” Foi dita primeiro em ‘Julio César’ (ato I, cena II).
4.       “LOVE IS BLIND”: Outra expressão de uso muito comum. Quem nunca, com relação à própria situação ou à de algum conhecido, fez esse tipo de comentário ao se referir àquela pessoa ou relacionamento improvável, cheio de problemas? (O mercador de Veneza, ato II, cena VI).
5.       “BREAK THE ICE”: "Quebrar o gelo", uma expressão tão corriqueira e informal que, quem poderia imaginar que popularizou-se numa fala de um dos personagens de Shakespeare? (A Megera Domada, ato I, cena II).

Há várias expressões tão populares quanto estas. Selecionei algumas que nos são comuns não apenas na língua inglesa, mas também na nossa própria.

“Addiction”, “hint” “bedroom” “bet”, “label”, “fashionable”, “excitement” “torture”, “luggage” e “gossip", são alguns exemplos de palavras inventadas pelo Bardo.

Vê-se que boa parte destas palavras são tão incrivelmente comuns que, igualmente incrível é crer que não existissem antes. Arriscaria dizer até parecer algo “unreal”, (outro pedaço acrescentado à “colcha de retalhos” de que se trata um idioma, pelo "seo" William).

* A ideia para o título desta postagem, “roubei” de um cartaz exposto no The Globe, com diversas das "criações" de Shakespeare.

** Na Grécia, por razões óbvias, eles dizem “It’s CHINESE to me”.

Referências e fontes de pesquisa:

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